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Os Seus Olhos

por RG, em 30.01.05
"Eles são gotas de cristal cheias de mistério
duas estrelas ocultas na madeira nobre
trazem um infinito no seu brilho sério
e uma luz que a sua escuridão encobre

Eles envolvem a sua existência no mundo,
duas lagoas que nas suas obscuras águas
escondem o amor no seu bem calmo fundo
e esquecem, de tantas mal curadas mágoas

Eles também agem como chamas acesas
duas labaredas queimando eternamente
mantêm em sua íris os meus como presas
para serem assados em uma brasa ardente

E perdido, totalmente a eles me entregarei
procurando perder-me na sua infinidade
e sem me queimar neles eu me aquecerei
e então mergulharei em sua eternidade

E se durante a noite fitam-me no escuro
contando-me coisas para me enlouquecer
eterno enfeitiçado, ajoelho-me e juro
não os esquecer, em todo meu viver

E na madrugada em que ficam cerrados
a velar seus sonhos após cansado dia
beijo esses olhos que são meus amados
para os proteger da madrugada fria

Quando se abrem despertos a degustar a luz
em um novo dia vindo para nos deliciar
envoltos de um mistério que a mim seduz
mantêm--me na cama em tênue sonhar

E para um longo dia em que longe dos meus
sofrerão com duros olhos que hão de encará-los
levarei meus olhos para o fundo dos seus
como se meu amor pudesse confortá-los

E no findar da tarde, vendo o sol caindo
na cortina do horizonte em rubro clarão,
eu abraço seus olhos como que pedindo
que aos meus respondam se os amarão

E os seus olhos brilham quando em noite revolta
trocamos mil segredos entre os nossos lábios
vejo nos seus olhos quando assim tão solta
toda nossa história escrita em alfarrábios

Aonde estão seus olhos quando os procuro
no meio das cobertas de uma cama vazia
eu perco-me relembrando o seu brilho puro
e acordo sozinho no raiar de um novo dia

Mas bastam suas pálpebras saírem a me piscar
para que exultante meu coração seja saciado
então eu volto, a nos seus, os meus olhos jogar
e nossas bocas deixarão as palavras de lado

Seus olhos são o início dos meus pensamentos,
o doce meio pelo qual os meus esperam viver,
e da procura o fim que sonho ver há tempos;
todo meu mundo, todo o sonho do meu ser ... "

Autor Desconhecido

os seus olhos

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publicado às 00:37

Bandas – A verdade por de trás dos seus nomes

por RG, em 23.01.05

Quem gosta mínimamente do mundo da música, de certeza que, por uma vez ou outra, já ficou intrigado com a originalidade do nome que certas bandas ostentam.


Na altura da escolha da melhor forma para identificar o grupo, enquanto alguns elementos certamente levaram em conta filmes, livros, sítios, situações ou mesmo músicas de outros artistas que os marcaram, houve uns quantos, que foram seguramente influenciados pelas drogas que deviam estar a consumir na altura de tão importante decisão. Sugiro pois, a quem tenha curiosidade sobre este assunto, que dê um salto ao site http://www.8ung.at/nina_m/bandnames.htm  para ficar a saber quais as inspirações de alguns dos artistas internacionais.  Desta forma ficarão a saber por exemplo que:


ABBA – São as iníciais dos membros do grupo, Agnetha/Bjorn/Benny/AnniFrid;


R.E.M - Rapid Eye Movement, significa um estado do sono;


U2 - You Too, porque a banda acreditava que o público fazia parte importante da sua música;


T.A.T.U – Provém de uma expressão russa Ta lyubit Tu, o que significa qualquer coisa como ela ama ela;


Duran Duran – É o nome de uma personagem, do filme chamado Barbarella de 1968;


Depeche Mode – É o nome de uma revista francesa de moda;


Portishead – É o nome de uma pequena terra situada perto de Bristol, Inglaterra;


Eminem – Sendo o nome dele Marshall Mathers, as iniciais surgem como M&M que se lê eminem;


Kosheen – São palavras japonesas que significam KO=novo / Sheen=velho;


Propellerheads – Termo calão para carolas do computador;


Jane's Addiction – Jane é o nome de uma prostituta, que todos os elementos do grupo tiveram a oportunidade de "conhecer";


Dido – É uma personagem da mitologia grega;


Foo Fighters – Era um termo americano usado na 2ª guerra mundial para designar objectos voadores não identificados UFO;


Incubus - Suposto demónio que tinha relações com mulheres enquanto estas dormiam;


Marylin Manson – Utiliza  o primeiro nome de MARYLIN Monroe  e o apelido de  Charles MANSON (serial killer);


Radiohead – É inspirado numa musica dos Talking Heads(termo p/ apresentadores de noticias de Tv), chamada "Radio Head" do álbum True Stories  de 1986;


Jamiroquai – É uma expressão que conjuga as palavras Jam + Iroquai (tribo índia americana «Iroquois»); 


Pode ser ainda encontrado no site preciosidades como:


Scissor Sisters – Termo calão para lésbicas;


Lemonheads - Cabeças de limão;


King Adora – Marca de um "massajador facial" de dimensões avantajadas;


The Zutons – Que simplesmente não tem qualquer significado. 


Fica apenas a faltar uma abordagem às inspirações das bandas lusitanas como os Blasted Mechanism, Blind Zero, Moonspell, Fingertips, Primitive Reason, entre outros.


 


RG



Fugees deriva de Campo de Refugiados, onde os pais dos elementos da banda estiveram


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publicado às 13:28

Portugal - O País dos espertalhões

por RG, em 19.01.05

                       O que importa saber sobre a linguagem gestual


 "A mais estranha manifestação do body language português é o gesto de enroscar o dedo indicador, estendê-lo na direcção da boca de quem está a tentar convencer-nos de qualquer coisa e depois aproximar e afastar o dito dedo em jeito de espadachim, dizendo: «Morde aqui a ver se eu deixo.»


 Um povo que faz estas coisas não pode ser um povo bom. Quem se lembrou a primeira vez de bater à porta dos dentes de outra pessoa? Por que havia de dizer: «Morde aqui a ver se eu não consigo tirar os dedos antes de tu fechares as mandíbulas»? E quem foi o génio que depois abreviou a frase para (todos agora): «Morde aqui a ver se eu deixo»?


 Os Portugueses adoram irritar-se uns aos outros com estes idiotismos porque nunca acreditam em nada e, sobretudo, uns nos outros. A desconfiança é muito amiga da linguagem gestual. Diz um indivíduo: «Sabes que sou capaz de ganhar o prémio APE este ano?» E o outro responde: «Já me tinham dito» mas mentalmente, anda com o dedinho em riste, furioso, aos saltos a dizer «Morde aqui a ver se eu deixo.»


 Quando os políticos se apresentam à nação, é como se já sentissem milhões de habitantes a levantarem-se das cadeiras para irem junto ao televisor, encostando os dedos cheios de gordura de sardinha à imagem da boca dos políticos e dizendo: «Vai baixar a inflação? Anda filho, morde-me aqui a falangeta a ver se eu deixo».


 É provável que tenhamos sido habituados desde tenra idade, porque não há como os Portugueses para meterem os dedos nas bocas dos seres vivos, com realce para crianças e animais. Com os cães já se sabe: não há proprietário que não insista em descascar as gengivas do seu magnífico espécimen canino para mostrar a salivosa dentuça a todos os desconhecidos e desinteressados. Quando apanham bebés, os crescidos adoram enfiar os dedos nas bocas deles, não se sabe para quê, mas presumivelmente é para ver se mordem. A ver, enfim, se deixam.


 É muito difícil convencer um português. Por muito afiados que sejam os nossos dentes. Por muito rápidos que sejam os nossos reflexos mandibulares. Mesmo, que fôssemos dobermans da persuasão e do argumento racional, ele está sempre à espera que lhe afinquem. Como dizia o emigrante para o secretário de Estado que prometia apoiar a comunidade portuguesa no mundo:«Mords ici, à voir se je te laisse.» Não há estrangeiro que possa compreender isto. Ele pergunta logo: «Mas morder porquê?» Quer logo saber: «Mas porque é que o outro não deixa?» E, sobretudo, não percebe o que representa o dedo indicador enroscado. Se algum incauto se aventurar a explicar-lhe, é até provável que o estrangeiro se aportuguese ao ponto de dizer «Está bem, está» («It’s well, it is»), «Morde aqui a ver se eu deixo.» (Bite here to see if I let you»).


 Aposto que há pessoas capazes de defender a «riqueza» e a «complexidade» da linguagem gestual portuguesa, como «forma de sentir do nosso povo» e uma linguagem «outra» e não sei que mais. Contudo, os gestos ainda são mais irritantes que os provérbios – são próprios do animal humano que ainda hesita em alfabetizar-se. Os piores são os mais estúpidos. Veja-se aquele gesto absurdo de pegar no lóbulo de uma orelha (num lóbulo, Santo Deus!), apertá-lo entre os dois dedos, fechar o olho que fica do mesmo lado da cara e dizer «É daqui». Os mais literatos não piscam o olho a até dizem «É de trás da orelha». Isto para falar em arroz-doce ou favas. Não espanta que a expressão tire a vontade de comer a qualquer turista, já que as partes traseiras da orelha (pavilhão, etc) não são exactamente as mais aperitivas. Muito se pode esconder de trás de uma orelha.


 E o célebre «manguito»? Manguito parece um nome de um daqueles atrasados mentais que tocam congas numa orquestra mexicana. Mas não é. É uma mania portuguesa que inexplicavelmente os faz rir. Porquê? O que é que temos? No fundo profundo de cada português, cada vez que se vê um Zé Povinho a dizer «Queres fiado? Toma!» há um eco atávico que nos diz «Olha que graça!». A esperteza do «Queres fiado? Toma!», o fino espírito de ironia, a subtileza do gesto pertencem à mesma ordem mental do «Morde aqui a ver se eu deixo». Repara-se na maneira como «o Zé» repete a pergunta que lhe fizeram para manter o suspense - «Queres fiado?» Gera-se um segundo de expectativa. O que é que «o Zé» irá dizer? E eis que, num lance, rápido como um relâmpago, ele agarra um braço com o outro, faz punho e diz «Toma!» (Na versão moderna poderá ser acrescentada de biscuit, como em «Toma lá biscuit». A versão antiga, ainda mais ordinária, era «Toma lá disto»).


 Haveria ainda muito por assinalar. O gesto de puxar pelas olheiras, tipo exame oftálmico de bolso, também é todo «A mim não me enganas tu», «Morde aqui a ver se eu deixo», «Olha, que eu sou de Olhão», «Tocas bem mas não me alegras», etc,etc. Os Portugueses vivem obcecados pela ideia de que alguém, algures, está a ver se lhes passa a perna. No nosso aviário, não há bico que não traga água. Se Noé fosse português e aparecesse a pomba com o ramo de oliveira, ele pensaria logo: «Olha, olha…deve ser pombo-correio…espera aí Noé, que isto traz água no bico, vai mas é buscar a caçadeira.» E bum!, lá se ia a pomba pelo ar, com o Noé a gritar: «Ó borracho, queres por cima ou queres por baixo?»


 É uma maneira simples de ver o mundo: «Tu és esperto, mas eu ainda sou mais esperto que tu.» É o mundo da raposa e do pato, em que só há um maior prazer que enganar o outro: é «topar» que o outro nos vai enganar. Nada se pode afirmar que não seja imediatamente descodificado e desmontado. Diz-se «Estás com bom aspecto, Mascarenhas!» e o Mascarenhas começa logo: «Olha este a ver se me enrola – mas o que é que ele quer para estar a dizer que estou com bom aspecto?» Em todas estas trocas impera a síndroma do «Espera Aí Que Eu Já Te Lixo».


 Os Portugueses fingem-se enganados («O gajo julga que me leva a melhor mas eu topo-o bem») para melhor poderem enganar quem julgam estar a enganá-los. Mesmo que ninguém esteja a tentar enganar ninguém. Os Portugueses não são aldrabões. Comportam-se como tal só porque julgam que estão rodeados por aldrabões.


É, não é? Está bem, está. Como dizia o outro: «Morde aqui a ver se eu deixo.»"


      Miguel Esteves Cardoso - "Os meus problemas"

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publicado às 22:31

A tua tatuagem

por RG, em 17.01.05

A tua tatuagem,
pura realidade ou simples miragem?
que deslumbro por breve instante,
mera rebeldia ou gesto de coragem
revela um outro lado interessante,
uma faceta ousada um traço mais selvagem;
A tua tatuagem,
um adorno ao teu ser
realça a beleza da tua imagem,
prende a minha atenção à tua passagem
faz os meus sentidos dispararem de prazer,
deixa o meu desejo transparecer;
ah essa tua tatuagem
pura realidade ou simples miragem?


RG                                                                                                                                                          


Tatuagem


 


 

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publicado às 20:25

Consciência

por RG, em 13.01.05
  "Quando olhas para os olhos de outra pessoa, qualquer pessoa, e vês a tua  própria alma devolver o olhar, então saberás que  atingiste um outro nível de consciência."

                                                                                     Brian L. Weiss


Consciência

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publicado às 20:24

Aprender

por RG, em 12.01.05
"Depois de algum tempo aprendes a diferença,a subtil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.
E começas a aprender que beijos não são contratos, e presentes não são promessas.
E não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobres que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la,e que podes fazer coisas num instante, das quais te arrependerás pelo resto da vida.

Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que tu tens na vida, mas quem tens na vida.

Descobres que as pessoas com quem mais te importas na vida, são tiradas de ti muito depressa; por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vemos.

Aprendes que paciência requer muita prática.

Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não dá o direito de seres cruel.

Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Algumas vezes, tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo.

Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, tu serás em algum momento, condenado.

Aprendes que não importa em quantos pedaços teu coração foi partido, o mundo não pára para que o consertes.

E, finalmente,

Aprendes que o tempo, não é algo que possa voltar para trás.

PORTANTO, planta teu jardim e decora tua alma, ao invés de esperar que alguém te traga flores. E percebes que realmente podes suportar... que realmente és forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.

E que realmente a vida tem valor, e que tu tens valor diante da vida!

E só nos faz perder o bem que poderíamos conquistar, o medo de tentar!" Shakespeare.



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publicado às 19:52

A Grande Onda

por RG, em 11.01.05
OS CICLOS ANCESTRAIS DA TERRA

V. S. NAIPAUL
ESPECIAL PARA O "LA REPPUBLICA"

"A primeira coisa que me ocorreu ao contemplar aquelas imagens foi a antigüidade da Terra. Existe alguma coisa de primordial na força que foi desencadeada. E embora estejamos sempre ocupados a nos mover velozmente por sobre e através do planeta, a catástrofe nos fez recordar que um simples tremor seu pode destruir e esvaziar todo o nosso trabalho. Acostumamo-nos a nos sentir no topo do mundo. A contemplar a vida de lá e a sentirmo-nos capazes de dominar tudo aquilo que nos circunda. Mas quando um evento natural do gênero se desencadeia, ficamos impotentes para fazer qualquer coisa. Resta-nos apenas, o mais das vezes, chorar de dor e raiva. A antigüidade da Terra não nos oferece outra saída, outra via. Percebo que como sempre nesses casos há aqueles que buscam explicações, recordam o passado, oferecem hipóteses e análises. Mas ao final o que resta depois do desastre é a tristeza, e na realidade nada há a fazer senão conviver com ela.
Nem todas as culturas reagem da mesma maneira, diante do poder devastador da natureza. E nesses últimos e dramáticos dias tivemos prova disso. Nas cenas que se desenrolaram diante de nossos olhos, nas imagens de morte e destruição que fizeram do oceano Índico o coração do mundo, pudemos ler não apenas dor, mas também dignidade.

Nós, aqui no Ocidente, não devemos esquecer que os moradores daqueles locais estão mais habituados do que nós a conviver com a força cega da Terra. Penso nos cidadãos indianos e nos de Bangladesh, acostumados à monção desde tempos imemoriais: a cada estação aguardam sua passagem destrutiva, tratando de se porem a salvo, e depois retornando às terras alagadas para reconstruir tudo aquilo que foi perdido. Os ciclos de destruição e reconstrução terminam por acostumar a alma humana à incerteza, à precariedade. Mas também a viver com maior serenidade e a valorizar mais o momento presente.

Eu contemplei muita coisa, naquelas fotografias, naquelas imagens televisivas, naquela tragédia de uma humanidade tão distante e ao mesmo tempo tão próxima. Observando e perscrutando as imagens das costas sobre as quais se abateu a onda, surpreendi-me ao perceber que os edifícios principais, os mais sólidos, se mantiveram em pé. O que terminou varrido, ao lado das vidas humanas, foi a imponente e ininterrupta cadeia da estrutura turística. As cabines de madeira, os bangalôs, as barracas, as bancas dos comerciantes. Tudo isso foi feito em pedaços pela violência incontida do mar. Quase aniquilado.

O destino que coube a grande parte daquilo que foi construído para promover o desenvolvimento do "tourist trade", do negócio do turismo, me parece demonstrar a falácia desse aspecto da vida do homem moderno: a precariedade e o aspecto transitório do turismo estarão para sempre associados à imagem da onda que arrastou as construções que o tornam possível. E essa é outra demonstração de o quanto somos novos, jovens mesmo, com relação à antigüidade da Terra que pisoteamos e que nos hospeda.

O tsunami afetou a todos nós. Ocidentais ou orientais, turistas ou locais, ricos ou pobres. Fez com que recordássemos que somos todos iguais diante da natureza. Mas não sou otimista, não acredito que a devastação da Ásia possa dar início a uma nova era de fraternidade e colaboração entre os membros da comunidade internacional. Creio que isso tudo seja uma ilusão romântica. As águas, depois da grande onda, se retiraram lentamente. Da mesma forma, assim que a emergência tiver sido superada, as coisas voltarão a ser como eram. Um novo espírito de cooperação não surgirá dessa calamidade.

Os povos do Sudeste Asiático terão de contar só com suas forças, com sua capacidade de reação. Que são diversificadas da mesma forma que são diversificados os países atingidos pelo maremoto. A Índia é um gigante econômico, potência a caminho da industrialização, e que se desenvolveu graças ao seu talento, cultura e educação. O mesmo não se aplica à Indonésia e à Tailândia, que não se educaram para o desenvolvimento e optaram por se contentar com a importação de projetos e modelos econômicos, sem criar uma estrutura original adaptada às suas exigências.

É certo que uma intervenção da comunidade internacional poderia ser útil. Um "Plano Marshall" para a área devastada pelo tsunami poderia se provar eficaz, como o original. Mas apenas se souber valorizar os recursos humanos, culturais e criativos dos países que receberem assistência. E o homem não é apenas um animal econômico, não pode se desenvolver apenas por meio de modelos industriais ou comerciais; isso é uma utopia. O homem resulta de uma série de combinações econômicas, não há como negar, mas também culturais. E a educação, sobretudo, tem enorme importância. O caráter de qualquer um de nós apresenta muitas variáveis, e é o caráter que faz com que um indivíduo, uma sociedade ou um povo queiram melhorar, queiram avançar, construir um mundo no qual se possa viver melhor.

Mas devemos ainda uma vez pôr freio ao entusiasmo, se nos leva a pensar que de um grande mal se pode derivar um bem igualmente grande. Não creio que o homem possa aprender, daquilo que aconteceu no dia de Santo Estevão, muito mais do que já sabia. A vida é absolutamente imprevisível, e a coisa mais útil que podemos fazer é aprender a conviver com essa idéia. Sem superestimar nossa sabedoria e sem pretender conhecer o imponderável. Como bem conhecem todos aqueles dentre nós que são pais: queremos sempre saber onde andam nossos filhos. Mas estamos certos de que não é possível controlá-los completamente."
________________________________________
Vidiadhar Surajprasad Naipaul, escritor inglês nascido em Trinidad e Tobago em 17 de agosto de 1932, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2001


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publicado às 23:26


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