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Portugal - O País dos espertalhões

por RG, em 19.01.05

                       O que importa saber sobre a linguagem gestual


 "A mais estranha manifestação do body language português é o gesto de enroscar o dedo indicador, estendê-lo na direcção da boca de quem está a tentar convencer-nos de qualquer coisa e depois aproximar e afastar o dito dedo em jeito de espadachim, dizendo: «Morde aqui a ver se eu deixo.»


 Um povo que faz estas coisas não pode ser um povo bom. Quem se lembrou a primeira vez de bater à porta dos dentes de outra pessoa? Por que havia de dizer: «Morde aqui a ver se eu não consigo tirar os dedos antes de tu fechares as mandíbulas»? E quem foi o génio que depois abreviou a frase para (todos agora): «Morde aqui a ver se eu deixo»?


 Os Portugueses adoram irritar-se uns aos outros com estes idiotismos porque nunca acreditam em nada e, sobretudo, uns nos outros. A desconfiança é muito amiga da linguagem gestual. Diz um indivíduo: «Sabes que sou capaz de ganhar o prémio APE este ano?» E o outro responde: «Já me tinham dito» mas mentalmente, anda com o dedinho em riste, furioso, aos saltos a dizer «Morde aqui a ver se eu deixo.»


 Quando os políticos se apresentam à nação, é como se já sentissem milhões de habitantes a levantarem-se das cadeiras para irem junto ao televisor, encostando os dedos cheios de gordura de sardinha à imagem da boca dos políticos e dizendo: «Vai baixar a inflação? Anda filho, morde-me aqui a falangeta a ver se eu deixo».


 É provável que tenhamos sido habituados desde tenra idade, porque não há como os Portugueses para meterem os dedos nas bocas dos seres vivos, com realce para crianças e animais. Com os cães já se sabe: não há proprietário que não insista em descascar as gengivas do seu magnífico espécimen canino para mostrar a salivosa dentuça a todos os desconhecidos e desinteressados. Quando apanham bebés, os crescidos adoram enfiar os dedos nas bocas deles, não se sabe para quê, mas presumivelmente é para ver se mordem. A ver, enfim, se deixam.


 É muito difícil convencer um português. Por muito afiados que sejam os nossos dentes. Por muito rápidos que sejam os nossos reflexos mandibulares. Mesmo, que fôssemos dobermans da persuasão e do argumento racional, ele está sempre à espera que lhe afinquem. Como dizia o emigrante para o secretário de Estado que prometia apoiar a comunidade portuguesa no mundo:«Mords ici, à voir se je te laisse.» Não há estrangeiro que possa compreender isto. Ele pergunta logo: «Mas morder porquê?» Quer logo saber: «Mas porque é que o outro não deixa?» E, sobretudo, não percebe o que representa o dedo indicador enroscado. Se algum incauto se aventurar a explicar-lhe, é até provável que o estrangeiro se aportuguese ao ponto de dizer «Está bem, está» («It’s well, it is»), «Morde aqui a ver se eu deixo.» (Bite here to see if I let you»).


 Aposto que há pessoas capazes de defender a «riqueza» e a «complexidade» da linguagem gestual portuguesa, como «forma de sentir do nosso povo» e uma linguagem «outra» e não sei que mais. Contudo, os gestos ainda são mais irritantes que os provérbios – são próprios do animal humano que ainda hesita em alfabetizar-se. Os piores são os mais estúpidos. Veja-se aquele gesto absurdo de pegar no lóbulo de uma orelha (num lóbulo, Santo Deus!), apertá-lo entre os dois dedos, fechar o olho que fica do mesmo lado da cara e dizer «É daqui». Os mais literatos não piscam o olho a até dizem «É de trás da orelha». Isto para falar em arroz-doce ou favas. Não espanta que a expressão tire a vontade de comer a qualquer turista, já que as partes traseiras da orelha (pavilhão, etc) não são exactamente as mais aperitivas. Muito se pode esconder de trás de uma orelha.


 E o célebre «manguito»? Manguito parece um nome de um daqueles atrasados mentais que tocam congas numa orquestra mexicana. Mas não é. É uma mania portuguesa que inexplicavelmente os faz rir. Porquê? O que é que temos? No fundo profundo de cada português, cada vez que se vê um Zé Povinho a dizer «Queres fiado? Toma!» há um eco atávico que nos diz «Olha que graça!». A esperteza do «Queres fiado? Toma!», o fino espírito de ironia, a subtileza do gesto pertencem à mesma ordem mental do «Morde aqui a ver se eu deixo». Repara-se na maneira como «o Zé» repete a pergunta que lhe fizeram para manter o suspense - «Queres fiado?» Gera-se um segundo de expectativa. O que é que «o Zé» irá dizer? E eis que, num lance, rápido como um relâmpago, ele agarra um braço com o outro, faz punho e diz «Toma!» (Na versão moderna poderá ser acrescentada de biscuit, como em «Toma lá biscuit». A versão antiga, ainda mais ordinária, era «Toma lá disto»).


 Haveria ainda muito por assinalar. O gesto de puxar pelas olheiras, tipo exame oftálmico de bolso, também é todo «A mim não me enganas tu», «Morde aqui a ver se eu deixo», «Olha, que eu sou de Olhão», «Tocas bem mas não me alegras», etc,etc. Os Portugueses vivem obcecados pela ideia de que alguém, algures, está a ver se lhes passa a perna. No nosso aviário, não há bico que não traga água. Se Noé fosse português e aparecesse a pomba com o ramo de oliveira, ele pensaria logo: «Olha, olha…deve ser pombo-correio…espera aí Noé, que isto traz água no bico, vai mas é buscar a caçadeira.» E bum!, lá se ia a pomba pelo ar, com o Noé a gritar: «Ó borracho, queres por cima ou queres por baixo?»


 É uma maneira simples de ver o mundo: «Tu és esperto, mas eu ainda sou mais esperto que tu.» É o mundo da raposa e do pato, em que só há um maior prazer que enganar o outro: é «topar» que o outro nos vai enganar. Nada se pode afirmar que não seja imediatamente descodificado e desmontado. Diz-se «Estás com bom aspecto, Mascarenhas!» e o Mascarenhas começa logo: «Olha este a ver se me enrola – mas o que é que ele quer para estar a dizer que estou com bom aspecto?» Em todas estas trocas impera a síndroma do «Espera Aí Que Eu Já Te Lixo».


 Os Portugueses fingem-se enganados («O gajo julga que me leva a melhor mas eu topo-o bem») para melhor poderem enganar quem julgam estar a enganá-los. Mesmo que ninguém esteja a tentar enganar ninguém. Os Portugueses não são aldrabões. Comportam-se como tal só porque julgam que estão rodeados por aldrabões.


É, não é? Está bem, está. Como dizia o outro: «Morde aqui a ver se eu deixo.»"


      Miguel Esteves Cardoso - "Os meus problemas"

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publicado às 22:31


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