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Outra forma de ver

por RG, em 15.08.05
Texto de Autor desconhecido (por mim)



"Correlações Anatomoclínicas da Paixão"



Há quem acredite que paixão se invente por ilusão,

surja na alma que nem sentimento.

Há quem creia que ela é algo que se sente,

não existe concretamente,

é um sentir com pressentimento.

A semiologia, no entanto, atesta que a paixão é mais que isso,

mais que vento,

mais que intenção,

é cruzamento

entre matéria e emoção:

é um bicho.

Pois que aquela sensação estranha

que nos toma o ventre

quando na presença do amor

ou de quem o desperte,

aquele frio metálico

seguido por uma circunvolução de estômagos e intestinos,

não é nada senão um giro voraz, desse animal torto que é a paixão, em nossas

barrigas.

Sim, a paixão quando habita o homem vira bicho.

O homem se torna também, mas depois,

por intoxicação.

O coração desse animal

fica dentro do nosso, bate com o nosso

no mesmo ritmo.

A boca dele fica em nossos olhos.

Por isso não adianta um ser apaixonado tentar dizer que não,

que juro,

que asseguro não estou apaixonado de onde você tirou essa idéia:

a boca da paixão incendiara, falando por dentro do próprio olhar.

As mãos da paixão estão em volta dos nossos pulmões, do coração, do peito;

por isso basta que a ausência exista,

a briga ocorra,

o sonho se ameace

para que esta criatura impiedosa aperte tudo

até doer como se dor pudesse ser.

O rabo desse animal medonho, no entanto, está em nossa barriga.

E basta que ele se mexa,

ao ouvir algo esperado,

ao sentir próximo o hálito,

ao unirem-se pele e mão,

para que nosso estômago se sinta extremamente vazio

de si mesmo.



Para matar este animal é preciso que de sacrifício se morra um pouco também.

Ouvir música alegre e prender o choro em frente ao espelho.

Não vestir vermelho

nem inventar dança.

O tempo, entretanto, é a única lança

capaz de pôr termo ao bicho.

Não de vez.

Mas aos poucos e da forma mais doída.



Paixão se contrai em qualquer rua,

noites com ou sem lua,

no momento certo ou não da vida.

Basta sorrirem por dentro duas pessoas,

sentirem que o tempo não passa,

não quererem que o tempo passe mais.

Feito isto,

o ser acometido

prefere ficar de cama

sobretudo na companhia daquele outro ser

que ama,

que tem o poder

de conter as horas.

Afora

os sintomas da face corada, com ar ligeiramente estúpido

o ser apaixonado costuma rezar todas as noites para que o companheiro adoeça
junto.

Meses de dormência temporal e espacial se seguem

até se descobrir um dia que o outro quando canta é desafinado

tem um olho desviado

coça a orelha esquerda com a mão direita

é míope e nunca dá gorjeta, quando saem.

Aí se toma susto.

E ou se foge ou se fica,

com raiva de tudo,

com ódio do mundo.

Tinha que dar errado outra vez.



Paixão é doença que ensina imperfeição.

Destrói o coração feito Chagas,

pede ilusão emprestada

e não paga

Deixa um vão.

E dói até que se descubra de repente

que a gente nem canta tão afinado assim

e o olho também desvia um pouco se olhar direito.

Paixão dói porque de duas uma:

ou o outro ou a gente

deixa de ser perfeito.



Dura quatro meses o mal.



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