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Sentido de injustiça

por RG, em 18.02.06
O que é para ti a injustiça?
Quando nos é colocada esta questão, de uma forma nua e crua, podemos pensar em várias situações que correspondam a uma resposta adequada.
Uma pessoa que esbanja 100 contos numa garrafa de champanhe num bar, enquanto centenas de pessoas estão a morrer de sede e de fome noutro ponto do planeta, parece ser uma injustiça.
Serem praticados actos de violência, em nome de convicções religiosas ou políticas, parece ser uma injustiça.
Ver o custo de vida aumentar dia após dia, e o ordenado manter-se o mesmo de há 5 anos atrás, parece ser uma injustiça.
Constatar que aquele borracho por quem temos um fraquinho, vai se casar com um totó qualquer, só porque ele tem uma conta bancária recheada que nem uma sapateira, parece ser uma injustiça.
Mas para mim, o que descreve verdadeiramente a palavra “injustiça”, é um episódio que se passou comigo quando andava na primária (1º ciclo). Mais concretamente na 3ª classe ou 3º ano, como preferirem.
Logo por aqui pode-se ver a gravidade da coisa, pois decorrido todo este tempo ainda me recordo perfeitamente do que aconteceu, como se tivesse sido hoje, quando nem sequer me lembro o que almocei ontem. Por acaso, até me lembro, foi bacalhau à Brás, mas não interessa.
E afinal o que se passou? Ora bem, durante a primária, tive sempre a mesma professora, que para além de explicar muito bem, ao fim de certo tempo, já conhecia de ginjeira a minha turma, e os respectivos feitios de cada um em particular.
Infelizmente, durante a tal 3ª classe, ela teve de se ausentar um par de semanas, por motivos de saúde.
Houve então a necessidade de ser colocada uma “Prof.” no seu lugar, que independentemente das suas qualidades educativas, não nos conhecia de lado algum.
Nessa minha turma, haviam 2 primos, que já eram muito “frescos”, apesar da sua tenra idade. Estes 2 rufias, davam-se muito bem com um outro rapazinho, de uma outra turma, que por coincidência (e azar) tinha o primeiro nome igual ao meu, e possuía igual temperamento dos 2 primeiros.
Os 3 eram famosos por meterem-se frequentemente com as miúdas das 2 turmas, de uma forma mais física. Entenda-se, beijinhos e apalpões (os assédios sexuais começam cedo para alguns). E foi precisamente este tipo de acção, que o trio lembrou-se de realizar um dia, à saída das aulas, sobre algumas meninas da outra turma.
No dia seguinte, essas meninas apresentaram queixa à minha professora (provisória), sob a forma de um simples bilhete que, para além de uma parca descrição do sucedido, incluía ainda e apenas o PRIMEIRO nome, dos 3 abusadores. Nada de apelidos ou sequer, a especificação da turma a que pertenciam.
Resultado, essa grande SUBSTITUTA, para não lhe chamar outro nome, sem se preocupar em esclarecer todos os pormenores da trama, condenou os 2 primos e a MIM (que era o único Ricardo da classe) sem dó nem piedade, com a pena a ser executada de imediato. Uma valente reguada na mão, com uma daquelas réguas de madeira grossa.
Apesar dos meus apelos, e da maioria dos meus colegas que sabiam que eu era incapaz de tal vil acto, para tentar dissuadi-la, acabei por ver mesmo consumada a sentença.
Mais que a dor física, a maior dor foi sentida na alma. Afinal, a primeira e única reguada que levei, foi por engano, e por causa de outra pessoa. Por mais forte que tentei parecer na altura, as lágrimas acabaram por correr inevitavelmente.
É claro que tudo acabou por ser clarificado mais tarde. Com a presença das miúdas da outra turma, que lá explicaram perante a Prof., que afinal não tinha sido eu, mas sim o outro menino, e que tinha havido um mal entendido, etc, etc.
Desculpas foram pedidas, quer pelas miúdas, quer pela Prof., embora esta de uma forma ainda assim muito reticente. Como se na realidade quisesse dizer: “Olha desculpa lá, foi azar teres o mesmo nome, e eu não te conhecer minimamente para saber que não farias tal coisa.”
Mas que grande SUBSTITUTA.
Perante isto não me ocorre a ideia de maior injustiça, que uma criança inocente, ser castigada por algo que nunca fez e do qual não tirou nenhum proveito palpável. Ainda para mais tendo sido eu essa criança.

RG

Sentido da injustiça?

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