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A verdade da mentira

por RG, em 03.05.05
Hoje em dia, é muito frequente recorrermos à mentira, como um precioso auxiliar de convívio social. Não me refiro à mentira vulgar, feia, cínica, ofensiva, mas aquela mentira normalmente considerada de “piedosa” ou “generosa”. E quanto vale uma mentira desse género em relação a uma verdade pura e crua? Provavelmente vale a continuidade de uma amizade, a permanência num emprego ou cargo político, ou até mesmo o bem-estar da relação de um casal. Não seria possível, numa sociedade em que temos de conviver e lidar com inúmeras pessoas diariamente, estarmos constantemente a atirar verdades, a torto e a direito, à cara uns dos outros. Seria o desabar de todas as relações humanas. Por muito que a verdade seja uma coisa bonita, que se deve aplicar no máximo de situações possíveis, há mentiras que empregues na hora certa não causam assim tanta mossa e acabam por deixar todos contentes. Quem nunca teve que passar pela experiência de ser confrontado por uma pessoa amiga, a questionar se está bonita com aquela determinada roupa? É claro que podíamos dizer que a roupa é do piorio, horrorosa, do mais bimbo que existe. Mas não, pois embora nalguns casos até deixamos escapar isso da boca para fora, na maioria das vezes, em nome da amizade e para não ferir sentimentos, dizemos que até se encontra muito gira. E só conseguimos aligeirar a nossa consciência, ao sugerir que use outra vestimenta, pois assentaria bem melhor (quando na realidade estamos é a evitar que essa pessoa faça figuras tristes à frente de terceiros). Não seria muito aconselhável, o patrão mostrar umas fotografias do seu recém-nascido ao empregado, e ao pedir a sua opinião, este dizer que o puto parece o resultado de um atentado terrorista. Era logo motivo para despromoção ou mesmo despedimento com justa causa. Quantos casamentos não iriam por água abaixo, se o homem dissesse à mulher que apesar de gostar muito dela, não se importava nada de dar umas “voltas” com a colega boazona lá do escritório? (e na situação inversa, o mesmo, como é óbvio, pois vivemos numa época de igualdade de direitos). A verdade, apesar de normalmente vir ao de cimo como o azeite, é nalguns casos perfeitamente dispensável. São ocasiões que mais vale ser “politicamente correcto”. É bom recordar ainda, que muitas vezes, refugiamo-nos na mentira simpática, não para agradar este ou aquele indivíduo, mas sim para nos enganar a nós próprios. É comum dizer que comer só mais um doce, ou beber mais um copo, não faz mal por ser uma ocasião especial, mas depois o corpo é que sofre as consequências. Inventamos mil e uma desculpas para não realizar aquele tal trabalho, quando na verdade só estamos mesmo com preguiça. Até somos capazes de arranjar inúmeros “contras” para simplesmente iludirmos a nossa força de vontade, de ir à conquista da pessoa amada. A verdade pode às vezes ser cruel, pelo que mais vale dizer certas mentiras inofensivas, que ao fim ao cabo, repetidas muitas vezes, acabam por se tornarem verdades.

RG

A verdade

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publicado às 23:15


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